O CUSTO DO PERDÃO NEGADO

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Ninguém se pode dar ao luxo de guardar rancor.

Há anos, enquanto visitava um senhor idoso em sua casa, ele partilhou algo que me chocou profundamente. Descreveu uma discussão com o filho e disse que simplesmente não conseguia perdoar a forma como o filho o tinha tratado, a não ser que o filho lhe pedisse desculpa. Tal perdão era, na sua opinião, impossível — e para o provar, mencionou uma passagem das Escrituras que, infelizmente, tinha interpretado erradamente.

A passagem a que se agarrava era Lucas 17:3: “Se o teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e, se se arrepender, perdoa-lhe”. O senhor idoso tinha interpretado esta passagem como uma condição absoluta: que se o filho pedisse desculpa e se arrependesse, então e só então poderia perdoá-lo — como se as palavras de Jesus fossem uma ordem e não uma exortação.

Outras passagens importantes das Escrituras, no entanto, demonstram que não é assim. Uma chave vital para compreender a Bíblia é considerar todas as passagens bíblicas sobre um determinado assunto — neste caso, o tema do perdão. Lemos em Mateus 18:21 que “Pedro aproximou-se dele [Jesus] e disse: ‘Senhor, quantas vezes hei-de perdoar o meu irmão quando pecar contra mim? Até sete vezes?’”. Até Pedro estabeleceu um limite humano para o perdão. Mas Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (v. 22).

Estaria Jesus a revelar que o limite máximo para o nosso perdão seria precisamente 490 vezes, como se alguém mantivesse realmente um registo contínuo de 490 ofensas individuais — rastreando cada pedido de desculpas recebido ou negado? Ou estaria ele, em vez disso, a usar uma figura de retórica, a explicar como o nosso perdão deve ser abundante — tanto que perdemos a conta? As Escrituras fornecem este princípio orientador: “Dai, e dar-se-vos-á: uma boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, será colocada no vosso colo. Pois com a mesma medida com que medirdes, também vos será medida” (Lucas 6:38). Devemos oferecer misericórdia generosamente e perdoar mesmo antes de um pedido de desculpas.

Reconciliação

Não pude deixar de pensar, de coração apertado, nas oportunidades perdidas por este homem para o riso, os momentos de alegria, as experiências partilhadas e os laços naturais que deveriam fazer parte de cada relação entre pai e filho. Percebi que a palavra de Deus é clara sobre contra quem são realmente dirigidos os nossos pecados. O rei David de Israel lamentou-se após os seus graves pecados de tirar a vida a Urias e cometer adultério com a mulher de Urias, Betsabé. As Escrituras registam o seu clamor de arrependimento: “Contra ti, somente contra ti, pequei e fiz o que é mau perante os teus olhos, para que sejas justificado quando falares e irrepreensível quando julgares” (Salmo 51:4).

Os nossos pecados são contra Deus. Sim, podemos ofender os outros, tratá-los mal ou prejudicá-los de alguma forma, mas os nossos pecados são sempre uma afronta ao nosso Criador. Por isso, nunca devemos permitir que os conflitos relacionais criem raízes de amargura em nós. A raiz principal de uma árvore penetra profundamente no solo, alimentando a parte superior da árvore com nutrientes e água vital. Da mesma forma, uma raiz de amargura penetra profundamente — mas o resultado não é a vida. Em vez disso, se for deixada crescer, os resultados são mágoa, tristeza e perda.

Somos instruídos: “Esforçai-vos por viver em paz com todos e por ser santos; sem santidade ninguém verá o Senhor. Cuidai para que ninguém se exclua da graça de Deus. Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando muitos” (Hebreus 12:14-15). O perigo de reter o perdão é a corrupção do carácter e o envenenamento do coração humano.

Além disso, Deus afirma claramente que aqueles que não perdoarem os outros terão o perdão de Deus negado: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:14-15).

Muitos anos se passaram desde que conheci aquele senhor mais velho — um pai implacável com o filho que não se desculpava. Não sei se chegou a reconciliar-se, mas o tempo perdido é um preço demasiado alto para qualquer ofensa real ou imaginária. Não deixe que isso aconteça consigo ou com alguém que ama. Faça tudo o que puder para se reconciliar com os outros — e, acima de tudo, “reconciliar-se com Deus” (2 Coríntios 5:20).

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